#33BIENAL/SP
Por
dentro da 33 Bienal/SP - Afinidades afetivas
Em seu romance
Afinidades eletivas, de 1809, Goethe conta a história de um casal burguês cuja
vida idílica é perturbada pela introdução de dois novos personagens em sua
relação: a filha adotiva da esposa e um amigo de infância do marido. Como
costuma acontecer nessas histórias, novas relações são forjadas para além das
convenções sociais da época. Até aí, tudo muito típico. Contudo, quando os
quatro protagonistas estão na vasta biblioteca desfrutando de uma noite de
música e leituras, um deles pega um tratado científico da estante e lê, em voz
alta, sobre as reações de certos elementos e moléculas, e como alguns se atraem
e outros se repelem, assim como óleo e água. Goethe parece estar nos convidando
a traçar um paralelo entre as afinidades eletivas do mundo natural e as
conflituosas vidas emocionais e espirituais dos personagens do romance. Se
nossos gostos e afinidades são governados por leis que não entendemos
totalmente, talvez estejamos diante de um sistema de organização que não é
exclusivamente moral ou cultural ou biológico, mas um estranho amálgama dos
três, no qual nossas afinidades, sejam elas conscientes ou inconscientes, nos
conduzem.
Quase um século e
meio depois, em um Brasil no limiar de uma revolução nas artes (reforçada pela
criação da Bienal de São Paulo em 1951), o crítico de arte e ativista político
Mário Pedrosa escreveu sua tese “Da natureza afetiva da forma na obra de arte”.
Nesse texto, ele usa a teoria da gestalt para discutir os modos como um
espectador ativamente constrói um entendimento de uma obra de arte qualquer, em
um diálogo entre as características formais da obra e a estrutura psicológica
do espectador. A natureza dialética dessa construção e sua adoção tanto da
análise formal quanto da subjetividade se mostrariam transformadoras para o
desenvolvimento da arte brasileira desde o início dos anos 1950 até o presente.
Simultaneamente enfatizando e relativizando o espectador individual, Pedrosa
articulou uma perspectiva 18 profundamente humanista pela qual é possível
entender a arte e seus efeitos (ou afetos, para usar sua
terminologia), independentemente do campo de batalha ideológico dominante no
qual uma forma de arte x é considerada inerentemente superior
a uma forma de arte y. Para Pedrosa, a arte devia ser julgada
essencialmente em termos de sua capacidade de criar uma relação produtiva entre
a intenção do artista e a sensibilidade do espectador. Um dos mais importantes
ativistas políticos do século 20, Pedrosa era também bastante claro quanto ao
potencial revolucionário da arte dentro dessa estrutura de emancipação
individual, resistindo à proposta de uma arte “política” no âmbito de seus
conteúdos narrativos
Eu diria que as
ideias de Goethe e de Pedrosa, aplicadas à nossa realidade atual, podem
oferecer um modo útil e enriquecedor de pensar os desafios e as contribuições
de uma bienal de arte contemporânea. Será que os conceitos de afinidade e afeto
fornecem uma estrutura ou sistema operacional diferentes, dentro dos quais é
possível organizar uma Bienal? Para a 33ª edição da Bienal de São Paulo,
proponho que a Bienal centralizada, discursiva e de cima para baixo – que hoje
é o protocolo padrão para as bienais internacionais – possa evoluir para uma
experiência mais diversificada, na qual a hierarquia entre arte e prática curatorial
possa ser repensada. Sendo assim, convidei sete artistas para compor a equipe
curatorial, e para organizar uma exposição independente dentro do pavilhão, na
qual suas próprias obras estivessem incluídas, ao lado dos artistas de sua
escolha. Com este modelo, espero mostrar como os artistas constroem suas
genealogias e sistemas para entender suas próprias práticas em relação aos
outros, permitindo ao mesmo tempo que os temas e as relações surjam
organicamente do processo da feitura da exposição, em vez de partir de um
conjunto pré-determinado de questões. Essa escolha também reflete um desejo de
reavaliar a tradição dos artistas como curadores, que é uma parte central da
história da arte moderna e contemporânea e também particularmente relevante no
Brasil, onde os artistas há muito tempo organizam suas próprias plataformas
discursivas. Cada artista-curador trabalhou com total liberdade ao determinar a
lista de artistas, o projeto expográfico e a lógica curatorial interna de suas
exposições. A diversidade de metodologias curatoriais resultante é inteiramente
intencional. Além dessas sete exposições coletivas, escolhi doze projetos
individuais de artistas que considero notáveis por diferentes motivos e que não
necessariamente têm uma relação temática entre si. Desses doze projetos, três
são exposições póstumas de artistas fundamentais dos anos 1990 que não
receberam a atenção merecida na história da arte recente: Lucia Nogueira,
Aníbal López e Feliciano Centurión. Além deles, o artista Siron Franco
participa com uma seleção de sua icônica série Rua 57 (1987), momento
transformador na produção do artista, e também na história da arte brasileira,
em reação a um acontecimento catastrófico do ponto de vista ambiental e social.
Se uma das críticas
ao modelo atual das bienais é que existe um descompasso entre os princípios
discursivos afirmados e a experiência física efetiva de estar no espaço
expositivo, essa questão deveria estar no centro de qualquer proposta de
renovação. Para a 33ª edição, essa preocupação informa tanto a distribuição
física das obras de arte no pavilhão (baixa densidade e espaços expositivos
claramente demarcados), quanto o programa educativo. As duas principais bienais
brasileiras (a de São Paulo e a do Mercosul) deram grande prioridade à mediação
e à educação, e, para mim, essa tradição as distingue da maioria das bienais,
nas quais, se essa preocupação existe, geralmente se situa no nível das boas
intenções, e não se reflete em termos de recursos concretos. Nesta edição, o
foco conceitual do programa educativo é a atenção: como administramos ou não
nossa capacidade de concentração ou àquilo que está à nossa volta. Embora essa
seja uma preocupação antiga, em nossa época a questão da atenção se tornou
especialmente pronunciada. Estamos apenas começando a entender o impacto
catastrófico das mídias sociais em nossas vidas interpessoais e políticas. A
nossa atenção se tornou o principal produto que as plataformas “livres” tentam
revender, enquanto continuam a seduzi-la em nossas horas de vigília. Aos visitantes
da 33ª Bienal serão oferecidos diversos exercícios ou protocolos, através dos
quais poderão experimentar de modos diferentes a exposição, na tentativa de
compensar a dispersão natural desse tipo de exposição de grande escala. A
ênfase na atenção também se associa à ideia de Pedrosa da forma afetiva,
estimulando o espectador a criar sua própria relação com o objeto e, depois,
compartilhar essa experiência com os outros.
O conceito de Afinidades
afetivas opera em dois níveis nessa edição. Os projetos dos
artistas-curadores demonstram como os artistas podem fornecer um modelo para
pensar um tipo de relação entre as obras que surge de relações longas e
produtivas dentro do campo em que trabalham. Por outro lado, ao apresentarmos
uma Bienal diversificada e fragmentada, livre de uma estrutura temática
abrangente, o espectador está livre para construir sua própria experiência das
diferentes propostas, sem a sensação de que terá sucesso ou fracasso na medida
em que corresponder ou não a um conjunto de princípios centrais e declarados.
No cerne desta edição há um desejo de reafirmar o poder da arte como lugar
único para concentrarmos a atenção no mundo e em favor do mundo. Se pudermos
pensar na arte e em suas exposições essencialmente como experiências, e não
como declarações, talvez possamos imaginar uma Bienal em que os artistas,
curadores e espectadores são tratados como iguais, todos capazes de construir
suas próprias afinidades afetivas com a arte e com o mundo além dela.
Gabriel
Pérez-Barreiro
Curador
geral da 33ª Bienal de São Paulo
Fonte: http://33.bienal.org.br/pt/sobre-a-exposicao
Visite à Bienal:
3ª Bienal de São Paulo – Afinidades afetivas
de 7 de setembro a 9 de dezembro de 2018
ter, qua, sex, dom e feriados: 9h - 19h (entrada até 18h)
qui, sáb: 9h - 22h (entrada até 21h)
fechado às segundas / entrada gratuita
Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque Ibirapuera
PAVILHÃO DA BIENAL
Av. Pedro Álvares Cabral, s.n.
Parque Ibirapuera, Portão 3
Estacionamento no Parque: Zona Azul (cada folha vale por 2 horas)
T: (11) 5576 7600
contato@bienal.org.br
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| Foto: Sidnei Lugouv #photolugouv |
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viva a arte!
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