28 de abr de 2017

A Arte de J. Borges



 Exposição - J. Borges - 80 anos


(Divulgação/Caixa Cultural)


Quando: 11/03/2017 a 07/05/2017


Local: Caixa Cultural São Paulo
Praça da Sé, 111 - Centro - São Paulo - SP



J. Borges - José Francisco Borges (Bezerros, Pernambuco, 1935). Artista popular, xilogravador e poeta. Filho de agricultores,  frequenta a escola aos 12 anos, apenas por dez meses. Realiza diversas atividades: é marceneiro, mascate, pintor de parede, oleiro etc. Em 1956, compra um lote de folhetos de cordel e começa a atuar como vendedor em feiras populares. Em 1964, escreve seu primeiro folheto, O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina, que é ilustrado pelo artista Dila (1937), de Caruaru, e publicado pelo folheteiro Antônio Ferreira da Silva, que acompanhava J. Borges nas feiras do interior.


Exposição - J. Borges - 80 anos - Caixa Cultural SP - Foto: Sidnei Lugouv

O folheto é um sucesso e vende cinco mil eemplares em apenas dois meses. Na segunda publicação, O Verdadeiro Aviso de Frei Damião sobre os Castigos que Vêm, J. Borges não encontra um clichê para a ilustração da capa do folheto e, por economia, produz sua primeira xilogravura, inspirada na fachada da igreja de Bezerros. Com esse trabalho, tem início sua carreira como xilogravador. Em pouco tempo, ele adquire máquinas tipográficas e passa a editar folhetos.

Exposição - J. Borges - 80 anos - Caixa Cultural SP - Foto: Sidnei Lugouv
A partir de 1970, começa a receber diversas encomendas de gravuras, o que fortalece sua obra e estimula a autonomia de suas gravuras em relação ao cordel. J. Borges continua escrevendo e produzindo cordéis por vinte anos e cria a gráfica Casa de Cultura Serra Negra, em Bezerros, na qual ensina o ofício a seus filhos. A xilogravura lhe dá projeção nacional e internacional: ele ilustra livros, como o Palavras Andantes, do escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), lançado pela LP&M, em 1993; participa de diversas exposições; e ministra oficinas e workshops sobre cordel e xilogravura. A partir da década de 1980, seu trabalho recebe prêmios que atestam a importância de sua contribuição como artista popular. Entre eles, o prêmio de gravura Manoel Mendive, na 5ª Bienal Internacional Salvador Valero Trujillo, Venezuela, em 1995; medalha de honra ao mérito da Fundação Joaquim Nabuco, Recife, em 1990; medalha de honra ao mérito cultural, do Palácio do Planalto, Brasília, em 1999; e o Prêmio Unesco, em 2000. Em 2006, J. Borges passa a receber bolsa vitalícia concedida com a Lei do Registro do Patrimônio Vivo² e é criado o Memorial J. Borges, em Bezerros, que assume as funções de ateliê, oficina e galeria. 

Exposição - J. Borges - 80 anos - Caixa Cultural SP - Foto: Sidnei Lugouv

Análise da trajetória

Apesar de ter iniciado sua carreira como cordelista, é pelas xilogravuras que J. Borges se destaca. É considerado pelo escrito Ariano Suassuna (1927-2014 o melhor gravador popular do Brasil. Autodidata, J. Borges desenha direto na madeira e muitas vezes as imagens são feitas de memória. O fundo da matriz é talhado ao redor da figura que recebe aplicação de tinta, tendo como resultado um fundo branco e a imagem impressa em cor.

Exposição - J. Borges - 80 anos - Caixa Cultural SP - Foto: Sidnei Lugouv

As xilogravuras de J. Borges não apresentam uma preocupação rigorosa com perspectiva ou proporção, o artista costuma assinar na matriz e, em geral, seus trabalhos não possuem tiragem limitada. Os principais temas de sua obra podem ser separados em quatro grupos. O primeiro diz respeito às personagens fantásticas do imaginário regional, como a mula sem cabeça. No segundo grupo, se encontram personagens famosas de folhetos de cordel, como o Pavão Misterioso. No terceiro estão personagens e temas emblemáticos da cultura nordestina: Lampião, Padre Cícero, a seca, a festa de São João etc. E, por fim, o quarto grupo apresenta temas do cotidiano, como os bares, as brigas de galo, as cerimônias ecumênicas e a política. 
Exposição - J. Borges - 80 anos - Caixa Cultural SP - Foto: Sidnei Lugouv
Esse imaginário adquire um aspecto documental, uma vez que se trata de um registro espontâneo e instantâneo da cultura. No entanto, deve-se atentar também para seu valor estético. Considerar esse valor é fundamental para atualizar a compreensão da obra de J. Borges, o que contribui para arejar o entendimento de arte popular. Como defende a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992)  cultura popular é diferente de folclore: "Quando a produção popular se petrifica em folclore [...] as possibilidades da cultura autóctone são substituídas por 'frases feitas', pela 'supina repetição' e pela 'definitiva sujeição a esquemas esvaziados' ".4 Para ela, pensar a arte popular é recuperar as condições de criação dadas em um determinado contexto histórico, pois, assim, entende-se que essa criação é mais complexa do que reproduzir um objeto fazendo uso dos mesmos materiais. É necessário, portanto, libertar-se dessas predefinições sobre o que representa a cultura popular, para dar conta da abrangência e importância da obra desse artista.

Fonte:

·    J. Borges. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa8837/j-borges>. Acesso em: 28 de Abr. 2017. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7





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