18 de jan de 2013

A ARTE DE WALTERCIO CALDAS

Waltercio Caldas

Waltercio Caldas Júnior, Brasileiro, Nascido Rio de Janeiro em 1946. Em 1965, estudou com Ivan Serpa no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Na década de 1970 editou a revista Malasartes e lecionou artes e percepção visual no Instituto Villa-Lobos. Começou a expor em 1973. Nesta mesma década, fez algumas exposições individuais nos principais museus do país. Na década de 1980, fez exposições individuais nas mais importantes galerias brasileiras.



Waltercio Caldas - Fonte: Folha.com
Hoje é considerado um dos artistas de maior renome do Brasil, com exposições feitas em diversos países do mundo: em 1990, na Pulitzer Art Gallery, Holanda; em 1991, na Kanaal Art Foundation, Kortrijk, Bélgica; em 1992, no Stedelijk Museum, Schiedam, Holanda, e Documenta 9, Kassel, Alemanha; em 1993, no Centre d’Art Contemporain, Genebra, Suíça; e em 1997, na Christopher Grimes Gallery, Santa Monica, Califórnia, EUA. Representou o Brasil na Bienal de Veneza, em 1997, e seus trabalhos estão nos acervos dos principais museus internacionais, além de esculturas para áreas públicas, expostas em Raum für den nächsten Augenblick, Neue Galerie, Kassel (Alemanha) e na Omkring, Leirfjord, Noruega.




Suas últimas exposições individuais foram realizadas no Museu Vale, em Vila Velha (ES), no Gabinete de Arte Raquel Arnaud - que o representa desde 1982 -, no CEUMA, e em uma importante retrospectiva no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro e em Brasília. Em 2007, após receber convite especial de Robert Storr, curador geral da 52ª Bienal Internacional de Arte de Veneza, cria especialmente para esta edição um ambiente chamado Half Mirror Sharp, instalado no Pavilhão Itália, formado por cinco esculturas “relacionadas como uma sequência de partitura musical”.



Fonte: Cosac Naify








Críticas


"O trabalho está preso aos limites da arte, a sua exigência é de ali situar-se em extremos. Mais do que a consciência, o trabalho tem a obsessão dos limites. Respira essa tensão e extrai força dessa ambigüidade. O que é arte e o que não é, quando é e quando deixa de ser, como pode sê-lo e como pode não sê-lo, essas são as suas questões. Mas ele não as coloca diretamente porque isso equivaleria a negá-las, escapar de sua pressão contínua, definir-se como consciência que interroga e responde. O trabalho vibra nessas questões, estas são o seu meio ambiente: só ali produz sentido, organiza e agita sentidos. O seu espaço é portanto a iminência do vazio, os limites, o que está entre as linhas que existem enquanto processo de demarcação de regiões diferentes. É sobre essas linhas que atua, captando a tensão circundante. E o trabalho não é senão essas linhas.

Digamos que seja uma espécie de dispositivo perverso. O seu olho, o seu cálculo consistiria precisamente em detectar os graus de ambigüidade e inadequação do objeto de arte, mas, do conceito de arte, ainda mais da instituição arte.

Tudo isso, é claro, sendo um trabalho de arte.

Pode-se imaginá-los em ação: meio soturnamente tirando prazer da desmontagem dos mecanismos que transformam a obra de arte numa aparente totalidade, perfeita em seu círculo, dominando coerentemente a sua circulação. Nesse processo sádico (que seria também um masoquismo) conta sobretudo o poder de desarticular, embaralhar, as várias instâncias que de modo implícito compõem a obra de arte e mascaram a sua constituição problemática. Trata-se, obviamente, de uma operação analítica: desconstrução do solo e das paredes da arte (objeto, conceito, circuito). O prazer do trabalho, o seu thrill, só aparece quando a arte fica em estado de suspensão, quando a arte é posta entre parênteses".


Ronaldo Brito 
BRITO, Ronaldo. Waltércio Caldas. In: ARTEPESQUISA. São Paulo: MAC/USP, 1981.



"A ciência acústica conhece um fenômeno chamado som de combinação, ou terceiro som. Se duas notas de alturas diferentes, mas relativamente próximas, são tocadas simultaneamente, suas freqüências entram em choque e produzem uma terceira nota claramente audível, equivalente à diferença entre elas. Embora tenha sido descoberto no século XVIII, até hoje não se sabe se o terceiro som é uma realidade física ou uma reação neurológica. Por analogia, poderíamos pensar nos trabalhos de Waltercio Caldas como objetos de combinação, ou terceiros objetos. Neles, há grande proximidade e, portanto, choque entre o projeto da obra e sua presença física. O projeto não parece ser anterior ao objeto, não poderia ser destacado dele como uma idéia ou um método construtivo, no entanto, o objeto é tão mediado, tão milimetricamente calculado, que remete necessariamente a um projeto. Os volumes das esculturas de Waltercio são incorpóreos, mentais e, todavia, não conseguimos definir com clareza sua geometria, não poderíamos duplicá-los ou utilizá-los como módulos. As coisas aludem ao espaço, mas não o desenham. Interrogados, seríamos obrigados a responder tautologicamente: 'Este espaço aqui, que estas coisas sugerem'. Idéia e corpo não ocupam, assim, dois lugares separados, um no pensamento, outro no espaço; eles superpõem-se, parecem gerar um ao outro simultaneamente. Como duas oscilações próximas, mas diferentes, que entram em fase, pensamentos e matéria criam assim uma perturbação, uma vibração secundária, que não pode ser reconduzida a nem uma nem outra freqüência principal, embora seja, com toda evidência, um reflexo delas. A substância do trabalho de Waltercio está justamente nessa vibração, algo que não é corpo nem idéia, algo que não enxergamos na obra, mas que podemos intuir por meio de ou graças a ela. Onde está a obra, nesse caso? Não apostaríamos em sua realidade física, tampouco em seu caráter de mera ilusão dos sentidos".


Lorenzo Mammì
MAMMÌ, Lorenzo. Waltercio Caldas. In: COCCHIARALE, Fernando. Panorama de arte atual brasileira/97.Texto Tadeu Chiarelli, Rejane Cintrão; apresentação Milú Villela. São Paulo: MAM, 1997. p. 101.



"Suas esculturas em madeira, vidro, álcool e metal atestam o rigor formal sempre presente em sua produção e, ao mesmo tempo, a mordacidade com que quase sempre se posicionou em relação à arte e seu circuito. Observando suas obras, o visitante perceberá que Caldas atualmente mergulha na subversão de certos pressupostos da tradição construtiva. Suas esculturas interrogam os rigores da geometria aplicados à escultura, criticam a participação física do público na apreciação da obra (as peças em vidro, se tocadas, podem simplesmente espatifar) e, quando se aproximam do design - uma das utopias construtivas -, desestruturam seu conceito de funcionalidade. Caldas descarrega sobre a tradição construtiva uma ironia e uma consciência crítica que há anos não se via com tanta intensidade. A razão para essa lacuna agora recuperada talvez esteja na própria trajetória do artista. Em 1979, sua produção ganhou notoriedade com a publicação do livro Aparelhos. Ali, o crítico Ronaldo Brito, analisando a obra do artista, pontua uma possibilidade outra de fazer arte contemporânea no Brasil, aparentemente muito distante daquela pregada pela nova objetividade brasileira, tendência onde pontificara Hélio Oiticica nos anos 60/70.


Metaforicamente, o livro anunciava a morte de Oiticica no ano seguinte e, com ela, o esfacelamento daquela arte de fundamentação romântica, ingenuamente em busca do rompimento das barreiras entre arte e vida, artista e espectador. A produção de Caldas na época - objetos de derivação dadaísta e surrealista, filtrados pela arte conceitual - tripudiava sobre esse romantismo libertário.

Caldas nos anos 80 passará por uma inversão circunstancial, parece: de artista muito preocupado com o discurso sobre arte, ele tentará converter-se em escultor, sondando e aprofundando a cada obra o discurso da escultura moderna. É o momento em que sua produção tende a perder a corrosão crítica e aproximar-se de um formalismo sem saída".

Tadeu Chiarelli 
CHIARELLI, Tadeu. Arte internacional brasileira. São Paulo: Lemos, 1999. p. 226-227.



"O movimento da obra de Waltercio na esfera da história da arte brasileira pós-construtiva, incorporando a contribuição neoconcreta e rediscutindo seus axiomas e postulados através de um diálogo conceitual, já é uma das faces reconhecidas por todos que acompanham o desenvolvimento desse trabalho há mais de duas décadas. Além da interrogação cognitiva do conceito, o conhecimento desse trabalho traz uma dimensão existencial. (...)

No projeto de expandir o campo do olhar explorando uma inteligência puramente óptica - a arte de Waltercio raramente traz qualquer retórica embutida - existe sempre um resíduo cético, em que a interrogação se apresenta com uma novidade: a dúvida feliz. Pervertendo a lógica positiva que sustenta a racionalidade mundana e seu elogio mesquinho do que se convencionou chamar de ´resultados´, esses exercícios insistem em contrariar o senso comum. Negando o culto da imagem e a falsa generosidade desse universo farto de figuras e pobre em raciocínio, as esculturas de Waltercio trazem na sua ascese uma sutil dose de humor da qual deriva o prazer. Essa dimensão existencial se realiza num processo em cadeia, em sucessivos enigmas para a retina, na promessa de que, se não cessarmos de usar a inteligência, é possível conviver com o real, apesar de sua brutalidade e aparência absurda".


Paulo Sérgio Duarte 
DUARTE, Paulo Sérgio. Interrogações construtivas. In: CALDAS, WaltercioWaltercio Caldas: 1985-2000. Coordenação Ligia Canongia. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 2001. p. 64-65.


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