23 de ago de 2012

Estetas de Los Angeles enfrentam bilionário da pop-art

Estetas de Los Angeles enfrentam bilionário da pop-art

ED HELMORE
DO "GUARDIAN"

Uma inflamada polêmica surgiu na principal instituição artística de Los Angeles, o Moca (Museu de Arte Contemporânea), contrapondo desde a alguns dos mais célebres estetas dos EUA a um bilionário empreendedor imobiliário.

O Moca, um dos símbolos da recente ascensão de Los Angeles como um polo artístico comparável a Nova York, está dedicado à apresentação e ao estudo da arte recente, e é tradicionalmente um lar de coisas eruditas e esotéricas. Mas o museu tem sofrido a deserção de vários conselheiros, artistas de primeiro time furiosos com um suposto nivelamento por baixo.

O artista conceitual John Baldessari foi o primeiro a se demitir, seguido de Barbara Kruger, artista gráfica do "agit-prop", e da fotógrafa Catherine Opie, especializada na temática gay.

Carl Court - 26.mai.11/France Presse
Mulher posa perto de uma instalação do artista americano John Baldessari exposta em Londres
Mulher posa perto de uma instalação do artista americano John Baldessari exposta em Londres


Na sequência, foi a vez de Ed Ruscha, possivelmente o artista com maior projeção internacional da cidade. Essas demissões, segundo eles, poderiam ser lidas como um protesto contra a direção do museu, que estaria voltada para aspectos comerciais e da cultura pop, em detrimento da educação e do trabalho acadêmico.

"Os artistas em Los Angeles estão muito chateados", disse Hunter Drohojowska-Philp, autor de "Rebels in Paradise: The Los Angeles Art Scene and the 1960s" (rebeldes no paraíso: a cena artística de Los Angeles e a década de 1960). "Há um cisma entre os conselheiros. É uma situação complicada."

As acusações recaem sobre Eli Broad, um empreendedor imobiliário bilionário e colecionador de arte que resgatou financeiramente a combalida instituição há três anos, com uma doação de US$ 30 milhões, e ao diretor escolhido por ele, Jeffrey Deitch, ex-marchand de Nova York, de mentalidade afinada com a pop-art.

Com apoio de Broad, dizem os descontentes, Deitch maquinou a saída do curador-chefe Paul Schimmel, que havia passado muito tempo no cargo. Estava então criado o cenário para um confronto entre os artistas e um colecionador rico, aliado a gestores encarregados de elevar o faturamento e o público das exposições do museu.

TENDÊNCIA

A exposição "Art in the Streets", uma investigação orquestrada por Deitch sobre o grafite e a arte da rua, atraiu um número recorde de visitantes. A isso se seguiu uma retrospectiva do trabalho artístico de Dennis Hopper. Neste ano, o ator James Franco foi o curador de uma exposição inspirada no filme "Juventude Transviada".

"Jeffrey representa uma tendência populista que muitos no mundo da arte consideram vulgar. Ele está mais interessado no espetáculo do que no trabalho acadêmico", diz o crítico de arte Carlo McCormick, de Nova York. "Eles sentem que ele está emburrecendo os valores culturais do mundo da arte."

E por trás disso, suspeitam muitos, está um bilionário cujas motivações não estão totalmente claras. Embora Broad tenha salvado o Moca e queira mantê-lo viável, ele também está construindo outro museu no centro de Los Angeles para abrigar seu próprio acervo.
Além disso, os conselheiros originais do museu têm sido amparados por personalidades endinheiradas, como Steven S. Cohen, magnata dos fundos de investimento, e Victor Pinchuk, um ucraniano que coleciona obras de Damien Hirst.

"A influência dos colecionadores provavelmente nunca foi tão forte", diz McCormick. "A arte está altamente profissionalizada e determinada pelo mercado em todos os níveis."

REAÇÃO E ARTICULAÇÃO

Os artistas de Los Angeles manifestaram consternação pelo fato de os aspectos educacionais da instituição terem sido eliminados do orçamento, e disseram temer que o Moca esteja virando "um clichê de Los Angeles ou uma parte da indústria do entretenimento".
"Queremos conhecer a direção do museu e saber que os curadores são respeitados, e que suas exposições estão sendo financiadas."
Mat Gleason, crítico de arte em Los Angeles, disse que "Deitch está na verdade vacinando o museu contra conflitos de interesses com colecionadores ricos". Ao fazer mais exposições orientadas para a cultura pop, "ele pode chegar aos pequenos doadores e dizer: 'Damos festas realmente legais, por que vocês não doam para nós?'".

Divulgação - folha.com
O bilionário Eli Broad, em discurso na Universidade Estadual de Michigan, é acusado de tornar o Moca muito pop
O bilionário Eli Broad, em discurso na Universidade Estadual de Michigan, é acusado de tornar o Moca muito pop


Em resposta a isso, Deitch escreveu aos membros do museu dizendo que o programa da instituição é "uma reação a e uma articulação da arte atual e da paisagem cultural de hoje". O Moca, disse ele, vai continuar se envolvendo com o público "de forma dinâmica e erudita".
Amigos de Deitch dizem que ele está cansado de ser criticado por colocar a pop-art e exposições sobre a cultura da era "disco" à frente da arte de vanguarda. Mas eles também dizem que ele é perfeito para Los Angeles, porque a cidade está "envolta em celebridades e aspirantes".

São os artistas, portanto, que talvez precisem aceitar que vivem em uma cidade do entretenimento. "Mas é claro que eles estão assustados pelo fato de pessoas como James Franco realizarem exposições, porque isso não é sério e não importa", diz um apoiador do Moca.

Mas são os artistas --e não os colecionadores ou os gestores institucionais-- que podem ficar com a última palavra. "Se expor no Moca significa se vender, então ninguém vai querer expor lá", diz um deles.

Tradução de RODRIGO LEITE.

Fonte: folha. com - Ilustríssima - 24/07/2012 - 14h00.



Viva a Arte!

By Lugouv.

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