Uma pintura congelada no tempo
Em 1874, em Paris, foi discípulo de Gêrome na École des Beaux Arts, adaptando-se à rígida disciplina acadêmica do autor de Un Combat de Coqs.
E se sob Gêrome não se tornou melhor artista, cresceu do ponto de vista técnico, adquirindo sólido métier, se bem que se lhe notassem na obra "uns tantos processos de pintar que só mais tarde foram substituídos" (Gonzaga Duque).
Assim toda a sua pintura parece-nos coisa antiga, fruto de um mundo de idéias por assim dizer congelado, de urna visão desatualizada dos seres e das coisas.
Exéquias, sua obra-prima
No Salon de 1877, Duarte expôs Interior da Galeria de Apolo; no do ano seguinte, sua obra mais célebre, Exéquias de Atala, hoje no Museu Nacional de Belas-Artes. Brilhantemente executada, vazada num desenho seguro e demonstrando amplos conhecimentos de volumetria, a pintura possui porém colorido discreto: um tema romântico, envolto em roupagem clássica.
O tema, aliás, deriva da conhecida narrativa de Chateaubriand: ao contrário de seu velho mestre Vítor Meireles, trabalhando uma geração antes da sua, ao contrário de seu compatriota José Maria de Medeiros, Augusto Duarte nem sequer utilizou em sua obra assunto brasileiro, preferindo lançar mão de índios importados, peles-vermelhas, na alambicada técnica francesa de praxe entre nós.
Não há como ignorar o convencionalismo, a teatralidade, o artificialismo do conjunto, a despeito de sua excelente fatura.
Há, entre Exéquias de Atalá e o Último Tamoio, de Amoedo (pintado em 1883), algo mais que uma simples coincidência temática: quase somos tentados a ver, na coincidência, a influência de Augusto Duarte sobre Amoedo, pois se a composição diverge, a atmosfera de ambas pinturas é idêntica.
Pintor de um só quadro
Retomando ao Brasil, Duarte participou em 1879 da Exposição Geral de Belas Artes, merecendo seu envio medalha de ouro; e em 1884 recebeu a Ordem da Rosa.
A despeito de tais distinções, continuaria sendo, para a crítica, o autor de um só quadro - as Exéquias.
No próprio ano do seu precoce falecimento, ocorrido a 17 de novembro de 1888, Gonzaga Duque cobra-lhe, em Arte brasileira, o nunca mais ter realizado nada que se pudesse comparar àquela obra, "que prometia um artista de primeira ordem".
A Lagoa Rodrigo de Freitas
Tendo vivido apenas 40 anos, Augusto Rodrigues Duarte deixou obra compreensivelmente reduzida.
Em suas poucas paisagens, queremos acreditar, reside o ponto mais alto do que produziu.
Exemplo típico é Lagoa Rodrigo de Freitas, em que o perfil das montanhas do Rio de Janeiro debruça-se sobre o espelho imóvel da lagoa, cujo gracioso contorno é ainda realçado por uma língua de vegetação para a direita.
Aqui e ali, a paisagem é entrecortada por barcos ancorados na areia, enquanto no primeiro plano, sentados sobre pedras, uma mulher e uma criança contemplam as águas mansamente tocadas pelo vento.
Tudo é feito em obediência a uma visão realista da natureza, sem dúvida; mas há sentimento e atmosfera, e um lírico colorido dá maior vivacidade a toda a composição.
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