20 de dez de 2011

A ARTE DE KONSTANTINOS KAVÁFIS

Kωνσταντίνος Πέτρου Καβάφης
(Kaváfis)

Konstantinos Kaváfis —Kωνσταντίνος Πέτρου Καβάφης —, (1863-1933) nasceu e morreu em Alexandria, cidade egípcia que o fascinava e o desesperava. Pequena, mítica, parte da história seminal dos povos do Mediterrâneo. Descendente de gregos, viveu no confronto com outras culturas sobreviventes, sob o protetorado inglês. Estudou na Inglaterra em sua adolescência e juventude, anos certamente decisivos para a sua formação intelectual e liberal, não obstante as diferenças com o conservadorismo e o moralismo vitorianos.

Cena do Filme: Kaváfis

Paralela à sua iniciação na literatura, entregou-se à vida amorosa clandestina e desregrada, de que são testemunhos os extraordinários poemas que deixou e que sobreviveram, já que ele resistiu à publicação em vida. Poesia ora sensual ora de ensejo histórico, mas sempre numa linguagem concisa, sem retórica e, não raras vezes, anti-lírica, pós-simbolista. Um dos poemas que melhor expressa esse sentimento é o famosíssimo À Espera dos Bárbaros, o qual deixo para os leitores, na tradução de Jorge de Sena:


À Espera dos Bárbaros 

O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão-de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergue tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhes
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois consules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
De ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.
Por que subitamente esta quietude?
( Que seriedade nas fisionomias! )
Porque tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.


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Monotonia



A un día monótono otro
monótono, invariable sigue: Pasarán
las mismas cosas, volverán a pasar -
los mismos instantes nos hallan y nos dejan.
Un mes pasa y trae otro mes.
Lo que viene uno fácilmente lo adivina:
son aquellas mismas cosas fastidiosas de ayer.
Y llega el mañana ya a no parecer mañana.


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 UM VELHO

No meio do café barulhento, debruçado
sobre a mesa, um velho está sentado;
com um jornal a sua frente, sem companhia
E no desdém de sua velhice mísera de agora
pensa quão pouco aproveitou os anos de outrora
em que tinha fluência, e beleza, e energia.
Percebe que envelheceu muito; sente, conhece.
E contudo o tempo em que era jovem lhe parece
ontem. Como o tempo passa, como o tempo passa!
E pensa em como a Prudência o enganou;
e como - que loucura! - sempre lhe acreditou
quando dizia; "Amanhã. Há tempo." - Que trapaça!
Lembra ímpetos que segurou; felicidade,
quanta sacrificou. Cada oportunidade
perdida de seu saber insensato graceja.
Mas de tanto refletir e recordar
o velho tonteou. E agora dorme a sonhar
no café recostado sobre a mesa.


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Ter se dado ao Trabalho



Sou quase um vagabundo, sem um tostão.
Esta cidade fatal, Antioquia,
devorou todo o meu dinheiro:
esta cidade fatal com sua vida extravagante.
 Mas sou jovem e tenho excelente saúde.
Prodigioso mestre de grego,
conheço Aristóteles e Platão de ponta a ponta,
bem como qualquer orador, poeta ou outro autor que você possa mencionar.
Em assuntos militares não sou ignorante
e tenho amigos entre os funcionários regulares mais velhos.
Tenho também um certo conhecimento de questões administrativas.

Passei seis meses em Alexandria no último ano;
uma coisa que sei (e isto é útil) sobre o que acontece por lá:
a corrupção, e a sujeira, e todo o resto.
  Portanto creio que sou inteiramente
qualificado para servir este país,
minha amada pátria, a Síria.
  Em qualquer trabalho em que me coloquem me esforçarei
para servir meu país. Esse é o meu propósito.
Mas, de novo, se me entravarem com seus sistemas –
nós os conhecemos, esses sabidos: precisamos falar disso agora? –,
se me entravarem não será culpa minha.
 
Procurarei Zabinas primeiro,
e se aquele idiota não me der valor,
irei ao seu rival, Gripos.
E se aquele imbecil não me der uma mão,
irei imediatamente a Hircano.
De qualquer modo, um deles me há de querer.
  E minha consciência está quieta
acerca de minha indiferença à escolha:
todos três são danosos à Síria na mesma extensão.
Mas – homem arruinado – não é culpa minha.
Estou apenas, pobre diabo, tentando ajeitar as coisas.
Os deuses todo-poderosos deviam ter se dado ao trabalho
de criar um quarto, um homem honesto.
De bom grado eu teria ido até ele.


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Foi assim, como versos e prosas,
recordações e desejos,
me entreguei ao mundo da arte.
Leio, observo e admiro todas as obras de artes.

Me pergunto, onde estão os gênios de Hoje?

Viva a Arte!

by Lugouv



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